da chegada das caravelas

28
Nov 15

Por António Sampaio da agência Lusa


A religião católica e a língua portuguesa, as duas principais heranças dos 500 anos de contacto entre portugueses e timorenses, marcaram ontem as cerimónias de inauguração do monumento que recorda essas relações na praia de Lifau, Oecusse, Timor-Leste.


  Foto: Gabinete da Primeira-dama

 

Uma caravela em bronze, com duas velas brancas decoradas com a cruz de Cristo vermelha, está elevada sobre várias plataformas circulares de cimento junto ao mar, na praia onde outrora um padrão mais singelo marcava, em pequenas pedras, a chegada dos portugueses.

 

Foi aqui, há 500 anos, que os primeiros portugueses pisaram Timor. O significado dessa primeira visita, e dos cinco séculos seguintes, evidenciou-se ontem, com o sol já a pôr-se e depois de uma missa de mais de duas horas.

 

E não apenas no que o momento representou: timorenses, 500 anos depois a escolherem como um dos símbolos da sua identidade o que é um dos maiores símbolos de Portugal, a caravela.

 

Nem sequer no discurso em português proferido pelo chefe de Estado, Taur Matan Ruak e, como o resto da cerimónia - o ponto alto das celebrações do 500º aniversário das relações entre os dois povos - a ser transmitido para todo o país, em direto, pela televisão nacional.

 

Os laços ficaram evidentes noutros momentos mais fora do protocolo da cerimónia, em que participaram as principais figuras do Estado timorense, o presidente do Tribunal Constitucional português, Joaquim de Sousa Ribeiro e vários ministros da CPLP, entre outros.

 

Ao som e à luz de fogo-de-artifício, centenas de timorenses alinharam-se para tirar fotos ao lado da caravela e entre as oito figuras em bronze que retratam esse primeiro contacto.

 

Entre eles, estavam pelo menos dois com camisolas da Fretilin (Frente Revolucionária do Timor-Leste independente) - o partido que, cumpre-se hoje 40 anos, proclamou a independência de Timor-Leste - e alguns chefes tradicionais, descendentes de outros que, há cinco séculos foram os primeiros convertidos ao catolicismo na ilha.

 

A importância do momento, e da união dos dois povos, ficou evidente quando o monumento foi formalmente inaugurado e foram retirados panos laranjas que cobriam seis das oito figuras, também em bronze, que acompanham a obra - seis no solo e duas na caravela.

 

Essa responsabilidade coube a representantes do Estado timorense e português e da Igreja: o presidente do Parlamento Nacional timorense, Vicente da Silva Guterres, o bispo de Baucau Basílio do Nascimento, o chefe de Estado, Taur Matan Ruak, o primeiro-ministro, Rui Maria de Araújo e o representante do Estado português, Joaquim de Sousa Ribeiro.

 

O chefe tradicional de Oecusse, Zeferino da Cruz Sau, relembrou e vincou a relação, explicando que foi assinalada nas cerimónias que antes desta, mais protocolar, os líderes tradicionais realizaram, com misticismo e o 'lulik', o sagrado do animismo timorense.

 

"A história aconteceu há 500 anos em Lifau. E essa lembrança foi passando de geração em geração até agora. Como dizia o monumento, aqui também é Portugal. Nunca poderemos esquecer isso e também nunca podemos esquecer a nossa história", disse.

 

Quem tivesse notado o miúdo do grupo que foi entregar oferendas aos bispos timorenses, Basílio do Nascimento e Norberto Andrade, no inicio da longa missa, poderia imaginar que esse esquecimento não será para já.

 

É que nas mãos, acenava com uma bandeira timorense e à cintura, tinha um cachecol português.

 

@Lusa

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